Pasmado - #19 > Orides Fontela
Vai ser gauche na Flip
Orides Fontela
Os versos de Orides Fontela (1940-1998), são coados pela Filosofia que estudou e por tormentos existenciais na fronteira razão/desrazão vividos por ela. Talvez mais até do que Carlos (Drummond de Andrade) ela foi gauche na vida. A singularidade da sua poesia é homenageada na edição deste ano da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), de 22 a 26 de julho. Orides é tida como difícil – fácil a vida não é. Para usar uma expressão dela, sua poesia é um “oceano introvertido”. Seguem brevíssimos exemplos. (Flavio Pinheiro)
Revelação
A porta está aberta
como se hoje fosse infância
e as coisas não guardassem pensamentos
formas de nós nelas inscritas.
A porta está aberta.
Que sentido
tem o que é original e puro?
Para além do que é humano o ser se integra
e a porta fica aberta.
Inutilmente.
Meio-Dia
Ao meio-dia a vida é impossível.
A luz destrói os segredos:
a luz é crua contra os olhos
ácida para o espírito.
A luz é demais para os homens.
(Porém como o saberias
quando vieste à luz
de ti mesmo?)
Meio-dia! Meio-dia!
A vida é lúcida e impossível!
Mão única
É proibido
voltar atrás
e chorar.
Memória
A cicatriz, talvez
não indelével.
o sangue
agora
estigma
Teologia I
Não sou um deus
Graças a todos os deuses!
Sou carne viva e
sal.
Posso morrer.
Loredano
O singelo monumento a Noel Rosa na praça Barão de Drummond, em Vila Isabel, zona norte do Rio. Granito cinza clarinho, dois metros de altura, 45x45cm de base. Inaugurado em agosto de 1938 - passado pouco mais de um ano da morte prematura do poeta aos 26 anos - esteve primeiro numa pequena praça interior, Tobias Barreto, meio escondida, à direita da avenida principal, Boulevard 28 de Setembro. Até passar em 1946 a ter maior visibilidade, transferido para a velha praça Sete, umbigo do bairro, atual Barão de Drummond.
O que têm aqui agora a ver Noel, aquele 7 de março e esse barão inventor do jogo do bicho? Nada. Papo de esquina, o prazer de jogar conversa fora. A tal coisa: entrou por uma porta, saiu pela outra, quem quiser que conte outra.
Tutty Vasques
Quando, afinal, Bruna & Shawn vão estacionar no Leblon?






A atriz brasileira Bruna Marquezine e o cantor canadense Shawn Mendes estão passando uns dias no noticiário das celebridades em evidência no calçadão da web. Para encontrá-los juntinhos basta abrir um site de informação qualquer e lá vão eles caminhando pela orla do Rio, voltando do shopping, fazendo trilha no mato, mergulhando no mar, tomando café no quiosque, saindo do aeroporto, visitando uma feira livre, trocando beijos na praia, essas coisas que todo mortal de passagem pelo Rio faz e compartilha com amigos nas redes sociais. Bruna e Shawn, fofos como eles só, são no momento a falta de assunto preferida na cobertura da vida como ela é até para os famosos em dias de folga. O jovem casal está muito perto de dividir espaço no olimpo dos memes icônicos do gênero com um artista de peso que há 15 anos chegou lá involuntariamente a partir da notícia ‘Caetano Veloso estaciona carro no Leblon’. O Leblon, para quem não sabe, é o bairro carioca onde os artistas mais param seus carros no Brasil e, por isso mesmo, a façanha de conseguir uma vaga na Dias Ferreira, por exemplo, só merece destaque na imprensa em casos muito especiais de exposição pública de fato tão banal e irrelevante. Bruna e Shawn merecem!
FAKE NEWS Não é verdade que, ao voltar de procedimento de harmonização facial, o cantor Latino não teve o rosto reconhecido pelo sistema de biometria do portão de casa, pulou o muro e foi mordido pelo próprio cachorro.
CHAPA QUENTE O hamburgueres que Eduardo Bolsonaro diz ter fritado quando trabalhou em rede fast food americana talvez expliquem as tais ‘habilidades extraordinárias’ reconhecidas no documento de concessão de ‘Green Card’ pelo governo Trump ao ex-deputado condenado pelo STF no Brasil.
BET ACUMULADA Nenhum apostador arriscou o palpite de que o mundo conheceria nesta Copa a aeromoça de Dubai que namora secretamente Ronaldinho Gaúcho há 5 anos.
ÚLTIMO RECURSO já tem cacique no PL achando que a indicação pura e simples de uma mulher para vice na chapa de Flávio Bolsonaro pode até ajudar, mas não reverte a queda nas pesquisas do candidato à Presidência: “Só se for uma mulher trans, negra e evangélica.”
PÉ DE PÁGINA Enfim uma boa notícia para os velhos intelectuais de esquerda: tem camelô na Flip deste ano vendendo botas ortopédicas para quem torcer o pé no calçamento do centro histórico Paraty.
Keisha Scarville
Passports, de Keisha Scarville, ganhou o prêmio de melhor livro de fotografia do ano no Les Rencontres D’Arles, o maior e mais renomado festival de Fotografia do mundo que acontece entre 6 de julho a 4 de outubro em Arles, na França. Durante este período há exposições, conversas e debates. Keisha, de 51 anos, vive no Brooklyn, Nova York. Usa a fotografia para arte que faz, tecendo com colagens e outras intervenções imagens que a vinculam fortemente à sua ancestralidade de mulher negra. O rosto que aparece em vários trabalhos de Passports, metamorfoseado de muitas maneiras, é o da foto de passaporte do seu pai que deixou a Guiana para tentar a vida na América. Há no livro também transcrições de conversas entre os dois. Keisha escava registros puramente burocráticos e reimagina visualmente o que se passou na diáspora que arrastou o pai de sua terra natal num sofrido percurso trilhado por tantos negros e negras. Sua fotografia materializa ausências. (Flavio Pinheiro)






O brilho que faltou na partida final da Copa, sobra na voz de cantoras espanholas. Rosalía, cantora e compositora, é um fenômeno. Despechá (desprezada em português) já teve mais de 1,3 bilhão de audições. Em seu novo e elogiadíssimo álbum Luz, chama a atenção Memória que ela canta com a portuguesa Carminho. Silvia Perez Cruz é fabulosa. Sua voz alcança longitudes impressionantes. Com acento flamenco ela canoniza a obra-prima que é Pequeño Vals Vienès, poema de amor e morte de Federico Garcia Lorca musicado por Leonard Cohen. Silvia já cantou no Brasil. Gravou O Meu Amor, de Chico Buarque, no disco de Hamilton de Holanda, bamba do bandolim. Buika é afro-espanhola. Aqui ela canta No Habrá Nadie en el Mundo e Mi Niña Lola. Supreestrella na voz da cantora pop Aitana é um sucesso avassalador.
Expediente
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Claudius, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Orides Fontela, Keisha Scarville
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas











cada dia melhor!
Excelente trabalho de pesquisa e elucidação. Cada edição do Pasmado traz mais cultura aos leitores