Pasmado - #17<
08 de julho de 2026
Laura Spinney
Proto é o novo livro da jornalista americana Laura Spinney, autora de Pale Rider, história da gripe espanhola que matou milhões de pessoas entre 1918 e 1920. Em Proto ela vasculha, com informações atualizadas, como o idioma Indo Europeu se multiplicou numa miríade de línguas, desde o Sânscrito ao Português, além de dialetos, o que considera um big bang primordial e fecundo. O mistério ainda é que povo originalmente falava esta língua.
Teorias do final do século 19, início do 20, sustentavam que inauguraram o idioma povos batizados como “Arianos”, que teriam vindo da Índia e se espalhado pela Europa. Mas descobertas científicas dos últimos 10 anos indicam que o idioma nasceu ao redor do Mar Negro, sendo falado por algumas dezenas de pessoas.
Segundo Spinney é mais seguro pensar que o idioma não nasceu de um povo único, mas sim um marco natural: o fim da era glacial ocorrida entre 11 e 9 mil anos atrás. As trocas e miscigenações que passam a ocorrer depois do degelo se deram mais por causa do pastoreio do que da agricultura de povos que passaram a ocupar enormes espaços deixados à tona quando o gelo escorreu. Por isso pessoas tão diferentes começaram a se encontrar e precisaram se entender. Em que língua, ou línguas?
O pulo do gato da extensa pesquisa da autora foi unir três campos diferentes da ciência em sua investigação: a Paleo Linguística, a Arqueologia, e a mais importante para decifrar enigmas, a recente Genética de Povos Antigos. Hoje é possível analisar um dente muito antigo e descobrir o que aquele indivíduo comeu, exatamente de onde ele veio, e qual o grau de parentesco que ele tem com seus vizinhos. A conclusão imediata é que houve uma grande e inesperada miscigenação já nessa época, e a mistura entre vários povos diferentes, fez com que a língua fosse se transformando em dialetos e depois em idiomas distintos.
Proto é um livro espantoso, muito bem escrito, com uma pesquisa ambiciosa, sem jargões acadêmicos. A pergunta original permanece, por que o Proto Indo Europeu foi o idioma escolhido, entre centenas que circulavam, para se espalhar entre culturas tão distantes umas das outras. Do Irã e Índia ao Hebreu, além da pletora de línguas latinas. “A imaginação humana é uma coisa poderosa”, conclui Spinney. (Arthur Fontes)
Leo Martins
Tutty Vasques*
O fim da era do ridículo e do absurdo no bom sentido
Foram por água abaixo com a eliminação do Brasil na Copa do Mundo os paradoxos criados pela turma da Globo ao chamar de ‘ridículo’ ou de ‘absurdo’ qualquer habilidade maior que o time do Ancelotti entregava enquanto esteve em campo. A cada gol da seleção, o locutor Everaldo Marques saudava o artilheiro da vez aos gritos de “você é ri-dí-cu-lo”. Ao que o comentarista Paulo Nunes acrescentava: “De um talento absurdo!” Após o vexame do futebol cinco estrelas diante da fria Noruega, ‘absurdo’ voltou a ser sinônimo de contrassenso. ‘Ridículo’ recuperou o sentido de insignificância digna de escárnio e zombaria. Ou seja, já se pode dizer que a participação do Brasil na Copa de 2026 foi ridícula e absurda sem correr o risco de estar elogiando alguém. Ninguém merece!
Diário da Copa:
Aos poucos, o brasileiro vai deixando de ter bronca da Argentina em Copa do Mundo. O sentimento que predomina agora é uma inveja desgraçada – e não só do futebol: os caras têm alma, representatividade e empatia com sua gente. Até os erros do juiz a favor deles a gente cobiça.
Resta uma esperança: Flávio Bolsonaro está tentando convencer Donald Trump a pressionar a Fifa pela anulação dos gols do Haaland contra o Brasil.
Vaiar a ‘pausa para hidratação’ já é a segunda manifestação mais popular nos estádios da Copa: só perde para a ‘ola’.
Tem pichação nova nos muros da CBF na Barra da Tijuca: ‘ANTI-SOCIAL, ANTI-FASCISTA e ANTI-ELOTTI’.
* Pasmado com a Copa
Fernando Lemos
“Pego mais um ovo na cozinha, quebro-lhe casca e forma. E a partir deste instante exato nunca existiu um ovo”, escreveu Clarice Lispector no enigmático conto O Ovo e a Galinha, mas essa é só a parte mais nobre da inspiração que levou o fotógrafo Fernando Lemos – não confundir com o surrealista português homônimo – a se dedicar ao ensaio inédito aqui exposto. A verdade é que “eu estava preso em casa por causa da pandemia e aí...” – eis o empurrão definitivo que o far niente deu à ideia de explorar formas pouco óbvias do ovo em estúdio doméstico. Lemos milita há 45 anos em redações de grandes jornais e revistas – desde 2015 rala no Globo –, já fez um pouco de tudo em produção de imagens para a imprensa, mas tomou gosto especial em fotografar objetos sobre bancada em clima de oficina depois da experiência bem-sucedida que viveu na seção de gastronomia da Veja Rio. Aí, pronto: juntou a poesia com o ócio criativo e o prazer de se desafiar com uma câmera na mão para transformar um ovo em modelo fotográfico. No princípio, uma luz bem direta e pontual revelou contornos de planeta. Depois, era só casca quebrada, vazia. O carimbo de validade da granja, o invólucro de papelão, a transpiração da superfície lisinha sob o sol da área de serviço, enfim, os cliques foram sendo disparados “de acordo com as minhas brincadeiras com a forma”. A interferência da pena em uma das imagens faz lembrar a galinha e o mistério existencialista que teve origem no dia em que Clarice deu de cara com aquele ovo de bobeira na cozinha da sua casa. (Alfredo Ribeiro)






Em tempos de tempestade política, melhor ficar com a alegria de torcer a favor de Cabo Verde e Vozinha na Copa. E a alegria do arquipélago também está nos ritmos, primos do samba e da percussão baiana, e na riquíssima sonoridade da música que remete às nossas raízes africanas. Tito Paris espanta males com Dança Ma Mi Criola. A rainha Cesária Évora canta Cabo Verde Mandá Mantenha e fecha a lista com a clássica Sodade. Boy Gé Mendès, de ascendência e alma cabo-verdiana, vive no Senegal e mostra talento com So Doce, So Mel. Mayra Andrade se expressa no batuque de Afeto. Luria, nascida em Portugal de pais cabo-verdianos, faz sucesso com a dançante Oh Na Ri Na. Viva Cabo Verde!
Expediente
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Claudius, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Fernando Lemos, Laura Spinney, Saul Steinberg, Arthur Fontes
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas










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