Pasmado - #15<
24 de junho de 2026
Voz poética - Blanca Varela
A peruana Blanca Varela (1926-2009) foi uma grande poeta latino-americana. Pertenceu a escola surrealista da Geração 50 de seu país. A rigor, transcendia a escolas em sua dicção singular. O crítico e ensaísta Roberto Paoli diz que seus versos são “símbolos que nunca compõem um quadro figurativo…mas que na sua essência verbal se comprometem com a desordem, com o absurdo, com o desespero e estão carregados de um tenaz acento vital”. Em 1943 Blanca ingressou na Universidad Nacional Mayor de San Marco, em Lima. Mudou-se para Paris em 1949 e guiada pelo amigo Octavio Paz tornou-se amiga de Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Henri Michaux. Voltou para Lima a seguiu a vida de poeta. Ese Puerto Existe, que reúne poemas escritos entre 1949 e 1959 a introduz no cânone da poesia latino-americana. É lúcida e desencantada em poemas com confissões abertas e amargamente existenciais como nos dois que se seguem. (Flavio Pinheiro)
CURRICULUM VITAE
digamos que ganhaste a corrida
e que o prêmio era outra corrida
que não bebeste o vinho da vitória
mas o teu próprio sal
que jamais escutaste ovações
mas latidos de cães
e que tua sombra
tua própria sombra
foi tua única e desleal adversária
NOITE
velha artífice
veja o que você fez da mentira
outro dia
(Tradução de Lucas Lazzaretti)
Dedé Laurentino
Tutty Vasques*
Ancelotti, o gênio da garrafa
Parece que desde moleque o homem já despontava na modalidade cuspe à distância em torneios organizados pela garotada que no início dos anos 1960 não tinha muito o que fazer em Reggiolo, lugarejo da região rural da Emília-Romanha, no norte da Itália, onde Carlo nasceu e foi criado na fazenda da família Ancelotti. O destino de vencedor o levou a jogar bola pela seleção de seu país e a se consagrar de vez como o treinador mais vitorioso da história do futebol mundial. Não é brincadeira, não: como técnico, ele tem 30 títulos nas cinco ligas europeias, além de cinco Champions League conquistadas. O currículo do mister, como se sabe, é a glória! O que não sabíamos é que ele não tem nada de original a dizer sobre futebol. Você lembra de alguma coisa coisa relevante que ele disse a respeito depois que assumiu o comando da seleção brasileira? Pois saiba que só os gênios têm o dom de realizar sonhos sem dar explicação sobre seus métodos. Nesse momento, Ancelotti deve estar trancado em sua garrafa (oportunidade de merchandising Brahma) matutando um jeito de concretizar nossos desejos. Eu acredito! Tá liberado acreditar, né?
Diário da Copa:
SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA A turma que mudou de hábitos e há mais de 10 dias só usa o controle remoto para mudar da Cazé TV para o Sportv – e vice-versa –, começa a sentir saudades do pessoal da Globonews. Imagina que dia desses um amigo do peito me perguntou no meio de uma resenha nossa sobre a Copa: “Tem visto o Merval?” Sem mais nem menos!
COMO ASSIM? Torcedor brasileiro sai de sauna em Miami horrorizado com as modalidades de abertura do Estreito de Ormuz sugeridas no cardápio do estabelecimento.
UMA COPA LEMBRA A OUTRA Mesmo que você não dê a mínima para o futebol, presta atenção no que anda fazendo por aí nesses dias: na Copa de 2030 alguém vai lembrar do que você fez na Copa de 2026.
LOS HERMANOS Com Milei na Presidência, francamente, o futebol deixou de ser nosso grande adversário na Argentina: tá liberado vibrar com o Messi!
AGENDA POSITIVA Esta é a última Copa do Neymar.
* Pasmado com a Copa do Mundo
Harf Zimmermann
Está nos seus últimos dias em Berlim uma exposição retrospectiva de Harf Zimmermann, fotógrafo alemão, que nasceu em 1955 em Dresden. Sua obra é extensa e variada – fez fotos de indústrias, de publicidade, de prédios tingidos por arte, de paredões de construções antigas que sobrevivem ao tempo e muito mais. Imagens suas ilustraram reportagens e artigos em grandes revistas como Stern, The New Yorker e The New York Times Magazine. Já há alguns anos passou a produzir apenas imagens em grandes formatos. É uma monumentalidade que em geral exprime abandono e o desgaste do tempo. O cenário de algumas delas é um avesso carcomido de Berlim. Mas os operários empoleirados nas tubulações de ferro de uma grande construção foram flagrados em Dresden. Não perde de vista, porém, o cotidiano de pessoas como as que estão dando braçadas na água à luz de um glorioso amanhecer. (Flavio Pinheiro)






No futebol o Brasil tem ficado devendo. Na música, não. Em toda parte, músicos de jazz e até de música clássica incorporam composições brasileiras ao seu repertório ou dedicam a elas álbuns inteiros. O clarinetista clássico americano Richard Stoltzman toca É com esse que eu vou, de Pedro Caetano. O cubano-americano Paquito D’Rivera, saxofonista e flautista ataca com sua banda A Rã de João Donato. Antonico, clássico de Ismael Silva reverbera no sax do argentino Gato Barbieri. O guitarrista Jim Hall percebeu a grande beleza de Beija Flor, de Nelson Cavaquinho, música raramente gravada. Há um momento em Apanhei-te Cavaquinho, de Ernesto Nazareth, que as mãos do fabuloso pianista italiano Stefano Bolani parecem ter 20 dedos. Yo Yo Ma, franco-americano de origem chinesa, tira do violoncelo todo o molejo possível para interpretar Cristal de César Camargo Mariano.
Expediente
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Claudius, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Blanca Varela, Lucas Lazzaretti, Harf Zimmermman, Antônio Stewart
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas









Mais uma edição espetacular. Vou procurar mais sobre essa poeta peruana!
Curriculum vitae, perfeito!