Pasmado - #13<
10 de junho de 2026
Jorge Valdano
Nada a ver com o ótimo livro de ensaios de Marília Garcia (Pensar com as mãos), mas é possível dizer que o argentino Jorge Valdano pensa com os pés. Ele jogou na seleção argentina que venceu a Copa de 1986, ao lado de Maradona. Marcou 4 gols. Mas se era bom com a bola nos pés é melhor ainda escrevendo contos e crônicas de futebol. A léguas da habitual clicheria, Valdano pensa futebol como um “jogo infinito”, expressão que apropriou de Juan Santurián. Este jogo, escreve, “é um recipiente gigantesco em que cabe tudo: emoções, ilusões, cataclismas, sonhos, pesadelos, opiniões, desencontros, polêmicas...” Boa partida para ele é quando a maioria dos jogadores está acima de seu próprio nível.
Valdano implica com um jargão preguiçoso: a intensidade. Na intensidade sem limites, jogadores se movem mais do que as especificações de fábrica do corpo e cometem atentados à precisão. Pior, a intensidade contribuiu para banalizar pelo menos uma nova lesão, a do púbis, de longa estadia em enfermarias. Cita Ángel Cappa: sempre é melhor jogar com a bola do que correr para alcançá-la. Por falar em bola, Nilton Santos foi taxativo. “O craque tem um problema: o adversário; o perna de pau tem dois: o adversário e a bola”. Araújo Neto (1929-2003), mestre consumado de crônicas esportivas, que por 32 anos foi correspondente do Jornal do Brasil em Roma, falava da “inconstância da bola” como um pilar fundamental do jogo em que ela é tantas vezes traiçoeiramente decisiva. Tratá-la com maestria consagra craques.
Valdano sente falta de mais reflexão e estratégia no jogo. Elogia a pausa, hoje escassa, dos que param para vislumbrar nos desvãos do campo o melhor companheiro para passar a bola. Parodiando a frase de Leonardo Da Vinci, Paulo Mendes Campos fez uma definição enxuta de um mago da pausa: “Didi: coisa mental”. Saber acelerar e frear, esta é a chave que Valdano receita. “Definitivamente, concentrar-se tanto no resultado deixa que se escape o melhor do jogo, o melhor da vida”, diz. No livro Fútbol: el juego infinito: el nuevo fútbol como símbolo da globalización Jorge Valdano fala de tudo sobre este jogo com exemplar riqueza vocabular e lucidez de pensamento. Que futebol veremos na Copa? “O grande segredo do futebol é que ele nunca termina de desvelar todos seus mistérios”, assim falou Valdano, que não costuma arriscar profecias. (Flavio Pinheiro)
Leo Martins
Marco Rubio é hoje conhecido internacionalmente pelas inúmeras vezes que pisou na bola atuando como ponta de lança da linha dura da gestão Donald Trump. Tem o toque dele na caça selvagem aos imigrantes ilegais e nas ações intervencionistas da Casa Branca na América Latina. O secretário de Estado norte-americano é titular da equipe que arquitetou o tarifaço global e colaborou com o genocídio em Gaza. Com o Brasil, mantém uma relação de inimizade declarada em tabelinhas bem tramadas com a família Bolsonaro. Estão na conta dessa boa relação as sanções a autoridades brasileiras com base na Lei Magnitsky e a classificação do CV e do PCC como organizações terroristas, motivo de insegurança para o sistema financeiro nacional. Rubio odeia o nosso Pix. A Copa do Mundo que começa nesta semana, parte dela nos EUA, deu a esta figurinha nefasta do álbum da extrema-direita global a chance de carimbar para sempre sua marca no mundo da bola. Pra começar, chutou pro alto todas as regras de convivência que só o esporte pode proporcionar: proibiu a seleção do Irã de pernoitar na América durante o Mundial (o time terá que dormir no México após os jogos em Los Angeles e em Seattle); revogou a cota de ingressos para torcedores iranianos em estádios dos EUA; barrou a entrada no país do árbitro somali do quadro da Fifa; submeteu a delegação do Senegal a uma revista vexaminosa no aeroporto da Carolina do Norte – a do Uzbequistão foi recepcionada em Chicago por cães farejadores. Sabe-se lá o que ainda vem por aí: a festa está só começando, inclusive para Marco Rubio.
Como retaliar os EUA
Tutty Vasques
O Brasil já foi o país da bossa nova, do café e do Pelé nos EUA. De uns bons tempos para cá, somos mais conhecidos na Terra do Tio Sam por causa do tal Brazilian Butt Lift, o bumbum brasileiro de exportação criado em laboratório pelo nosso Ivo Pitanguy. O procedimento de injetar nos glúteos gorduras indesejadas na barriga e nos flancos caiu feito luva no corpo estranho das americanas. Eis a principal arma comercial de que dispomos para enfrentar o desejo incontrolável do Trump nos ferrar pelas costas do Lula: ou a Casa Branca respeita nossa soberania ou cancelamos a licença de clonagem do bumbum das nossas meninas em todo o território norte-americano. Fiquem com as bundas que têm por aí, ok? Esqueçam a nossa!
NINGUÉM MERECE Sem querer dar razão aos terraplanistas, o planeta está cada vez mais chato, né não?
HEXAGERO Nada contra o Tiago Leifert ou o Galvão Bueno, mas não precisava o SBT juntá-los para a Copa, e ainda chamar o Olodum!
AMIGO DA ONÇA Israel voltou a atacar o Líbano só para confirmar se nem assim o idiota do Trump percebe que Netanyahu está lhe passando a perna.
MONSTRO O tal Jairinho desmoralizou o uso do diminutivo para chamar pessoas queridas pelo nome.
CHICLETE COM BANANA Lula vai ao G7 para tentar fazer Trump entender que o samba não é rumba.
QUEM NÃO É? Tem pichação nova nos muros do Vaticano: ‘O PAPA É PIX’.
Ramón Masats
O olho de Ramón Masats (1931-2024) captou o improviso da vida sem nada que denote um espanto fabricado, mas apenas a surpresa da espontaneidade. Catalão, Masats foi chamado algumas vezes de Cartier Bresson da Espanha. Começou em 1953 como fotojornalista e nesta atividade calibrou seu atilado senso de oportunidade. Sua foto mais conhecida é a de um padre/goleiro numa pelada em um seminário (foi gol ou não?). Na vivência nas ruas flagrou um homem com o pé pousado no cachorro, impassível, outro de muletas numa rua de pedras, e mais um com uma cesta na cabeça cruzando com meninas. Registrou o pânico diante da fúria de um touro desembestado nas ruas de Pamplona na festa de San Fermin, Espanha. E mãe e filho balançando no ar abraçados num parque de diversões. (Flavio Pinheiro)






Músicas para o Dia dos Namorados bem longe dos shoppings. Para começar, Chico canta com Carlinhos Vergueiro Amor Barato para amores de esfarrapar e cerzir. Caso Sério é Rita Lee e Roberto Carvalho em modo paixão. Amor até o fim é jura de amor que Gil canta com Maria Rita. Pedro Luís vem com Estácio, Eu e Você, de Luiz Melodia. Fernanda Takai e Marcos Valle fazem dobradinha em Fotografia, clássico de Tom Jobim para amores de fim de tarde. Liniker solta a voz em Veludo Marrom, prêmio de melhor canção do último Grammy Latino. Fecha a lista Numa Sala de Reboco, forró amoroso de Luiz Gonzaga e Zé Marcolino.
Expediente
Editor: Flávio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Rubens Gerchman, Ramón Masats, Dr. Túlio Souza
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas










Ótimo !!!!
uma delícia este número!