Pasmado - #12<
03 de junho de 2026
José Emilio Pacheco
O livro do mexicano Jose Emilio Pacheco (1939-2014) – As Batalhas no Deserto - pode parecer só uma novela nostálgica. Por várias razões, não é. Pacheco é um dos grandes poetas de língua espanhola do século 20, além de ter sido ensaísta e romancista bissexto. Graças a editora Pinard está sendo publicado pela primeira vez por aqui, com tradução de Ari Roitman fiel à sua prosa vivaz. As Batalhas se dão num reduto de classe média de tempos idos. “Era o mundo antigo. Os adultos se queixavam da inflação, das mudanças, do trânsito, da imoralidade, do barulho, da delinquência, do excesso de gente, da mendicância, dos estrangeiros, do enriquecimento sem limite de uns poucos e da miséria de quase todos”, é dito logo no abre-alas do livro. Nostalgia? Passado? Ainda soa tão familiar como as ditaduras que não perderam o ânimo com o tempo, apesar do rastro de barbaridades que deixaram.
Nesta classe média que bebia uísque porque achava tequila vulgar, cresceu Carlinhos, cercado de preconceitos e interdições antiquíssimos, mas que se mantêm vivos hoje em pregações de hipócrita moralidade. O melhor amigo de Carlos era Jim. Mariana, mãe de Jim, era uma mulher bonita que despertou nele uma paixão obsessiva e acendeu humores hormonais..
Carlinhos um dia não se contém e declara explicitamente sua paixão para Mariana, mulher mais velha e casada. Não houve nada além de uma declaração, mas a cidade toda ficou sabendo e disso resulta um escândalo. Precisa sair da escola. Jim, o melhor amigo, afasta-se. Um diagnóstico sumário trata o caso como um problema edípico, de menino superprotegido por mãe castradora. A mãe ouve uma palavra de consolo: “o menino é espertíssimo e extraordinariamente precoce, tanto que aos quinze anos poderia se tornar um idiota completo”. As histórias correlatas dos irmãos de Carlinhos, da escola e das famílias do bairro, ornam o relato de um mundo que nas suas aparências foi apagado. Mas que deixou sementes. Fica no ar um mistério sobre Mariana. (Flavio Pinheiro)
Loredano
É bola – o vírus da Copa
Tutty Vasques
Você que não tem o hábito de assistir TV e também nem está aí para a Copa do Mundo não sabe o drama de quem não tem a mesma sorte. A partir da quinta-feira, 11 de junho, gente como eu vai entrar numa espécie de transe com a bola diante da televisão. Um tipo de hipnose que te faz cancelar jantar com alguém interessante ou desmarcar o pilates para assistir Bósnia x Catar, Haiti x Escócia, Irã x Nova Zelândia. Conheço quem seria capaz de colocar o próprio emprego em risco para não perder Curaçao x Costa do Marfim no escurinho da TV do quarto. Foda! ‘Foda’, no caso, bem entendido como a melhor parte do pacote. O pior do combo Copa do Mundo para dependentes químicos do futebol está nos intervalos entre um jogo e outro. As musiquinhas, as bandeirinhas, as dancinhas, as tabelinhas no meio da rua, as figurinhas, o Gonzaguinha, os Ronaldinhos, mais o Tiago Leifert, a Virgínia Fonseca, os caras pintadas fantasiados de torcedor: ’Êêô êêo êêô Brasil! O sonho do hexa com patrocínio Ambev, Itaú, Unilever, Amazon, BYD, Superbet, Localiza, Medley, XP, Shopee, McDonald's, Airbnb, Carrefour, Coca-Cola, Apple, OpenAI, Betano, Havan, McCain, Ademicon e, last but not least, Zé Delivery. Sem falar nas resenhas, no tal controle de carga do Neymar, nos lances ajustados, a perna dominante e o Olodum. A partir de agora, tudo na vida está junto e misturado com o futebol. Melhor demonstração disso está na pichação pela redução da jornada de trabalho em rua decorada para a Copa: ‘Pior que 6 x 1 só 7 x 1’. Se você também está assustado com esse sentimento contagiante que se avizinha, calma: é só um surto, vai passar!
AÍ TEM! Faz tempo as crises de soluço do Bolsonaro não dão notícia, né não?
AGENDA POSITIVA Dedicada agora a infernizar o Brasil, a Casa Branca talvez adie os planos de completar o serviço em Cuba ainda em 2026.
MEDIDA DE SEGURANÇA Aproveitando o bom momento nas pesquisas, Lula decidiu não cortar mais ele próprio as unhas dos pés até as eleições. Evita acidentes e mantém a Janja ocupada.
ESSA NÃO! ‘Go up’, razão social da produtora do filme Black Horse, não é uma corruptela americanizada de ‘Golpe’. Soa parecido, mas ‘Go Up’ não tem nada a ver com ‘Golpe’!
CONTRA GOLPE o senador Ciro Nogueira reagiu à reportagem demolidora de sua reputação na Piauí acusando a revista de se apropriar do nome do seu estado sem pagar royalties de propriedade intelectual.
MAU PRESSÁGIO O time de Ancelotti voou para a Copa em avião que já foi usado pela banda de Mick Jagger.
Marilyn
Tudo aconteceu em 1926, há 100 anos. Marylin Monroe com sua persuasiva beleza e comovente vulnerabilidade nasceu no dia 1 de junho. Larry Burrows, notável fotojornalista, veio ao mundo no dia 4 de junho. Rosalind Drexler, artista, romancista e dramaturga nova-iorquina estreou na vida no dia 26 de novembro. Eles, e muitos mais, estão juntos na exposição Marilyn Monroe: A Portrait que a National Portrait Gallery de Londres inaugura no dia 4 de junho. Burrows cobriu a guerra do Vietnã durante 9 anos. Lá morreu num helicóptero abatido pelos vietcongues. É dele a foto de Marylin na janela em Londres, acenando para uma pequena multidão. No calor da hora Rosalind pintou em 1963 Marilyn persued by death (Marilyn perseguida pela morte, em tradução literal), retrato da fama implacavelmente assediada da moça que nasceu com o nome de Norma Jeane (imagem 5). Marylin se foi em 1962, aos 36 anos, por overdose de barbitúricos, segundo laudos da autópsia. Na exposição, Richard Avedon (foto 1) e Sir Cecil Beaton (Fotos 3 e 4), dois gigantes da arte do retrato, exploraram com talento a permanente fotogenia da diva. Andy Warhol, também na mostra, pintou-a com as cores cítricas de sua arte pop (imagem 6). O mito Marilyn sobrevive. (Flavio Pinheiro)






Elas são afropéias, isto é, tem ascendência africana, ou nasceram na África e vivem na Europa. As músicas que cantam e, às vezes, também compõem, carregam sonoridades africanas. Mayra Andrade, nasceu em Cabo Verde, tem 41 anos, canta Afeto. Mora em Portugal. Aya Nakamura, tem 31 anos, nasceu no Mali e mora na França onde faz sucesso. Canta em francês Copines. Celeste, 32 anos, filha de pai jamaicano e mãe inglesa, vive em Londres. Canta em inglês Stop This Flame. Buika, de 54 anos, nasceu em Palma de Mallorca, Espanha, e seus ascendentes são da Guiné Equatorial. Canta em cadência hispânica No habrá nadie en el mundo. Sade, 67 anos, já vendeu milhões de discos. Your Love is King dá nome a um deles. Nasceu na Nigéria e mora em Londres. Asa tem 43nos e é nigeriana-francesa. Fire in the Mountain é um de seus sucessos. Fecha a lista Angélique Kidjo, 65 anos. Sacode Refavela, de Gilberto Gil, cantando em fon, a língua do Benin, seu país.
Expediente
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Logomarcas: Dedé Laurentino
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Adorei!