Pasmado - #11<
27 de maio de 2026
David Attenborough
No dia 8 de maio, escrevi para dois amigos botafoguenses. Começava assim: “Cem anos de Attenborough na Terra”.
Como eram correligionários de arquibancada, explicava, em termos perfeitamente compreensíveis para eles, o impacto que sir David Attenborough – o aniversariante do dia – teve sobre nós, criaturas do mundo: “Se o nosso naturalista predileto estivesse à frente do Botafogo, hoje Marechal Hermes seria um santuário do dodô (o pássaro extinto, não o jogador), General Severiano abrigaria o único experimento planetário de reprodução do tigre-de-dentes-de-sabre e, não menos importante, já teríamos nos classificado, com cinco rodadas de antecedência, para a final da Champions League.”
Desde que entrou como estagiário na bbc, em 1952, Attenborough tem sido isso: alguém capaz de nos fazer acreditar que o mundo natural ainda tem salvação, que nem tudo está perdido.
Certa vez, um rapaz evangélico me deu sua definição de fé. “A fé”, disse-me ele, “é a certeza da esperança.” Nesse sentido, Attenborough é um homem de fé. Há gente séria que o critica justamente por isso. O jornalista George Monbiot, por exemplo, escreveu que os documentários de Attenborough criaram “uma impressão de segurança e abundância, mesmo em lugares assolados pelo colapso ecológico”. Seus filmes cultivariam a complacência, não a ação.
Entendo, mas penso que é atribuir agência demais ao realizador, e de menos ao espectador. Inúmeras pessoas decidiram se engajar na defesa do mundo natural depois de assistirem aos documentários de Attenborough. Outras tantas – a grande maioria – se acomodaram no sofá, correram todos os episódios de suas magníficas séries sobre plantas, bichos, florestas e oceanos, e foram dormir tranquilas, reconfortadas diante de tanta beleza.
De quem cobrar essa conta?
No fim das contas, o que fica é a extraordinária capacidade que Attenborough tem de se deslumbrar com o mundo natural, e de nos arrastar junto nesse deslumbramento. Tem um coração de pedra quem não se comove com a antológica cena filmada nas montanhas Virunga, em Ruanda, em janeiro de 1978.
Um Attenborough jovem e belo se arrasta até três gorilas — uma fêmea adulta e dois filhotes — e, em voz baixa, nos explica por que gorilas não são as criaturas que a má literatura, o mau cinema e a má divulgação científica costumam retratar. “Parece realmente muito injusto que o homem tenha escolhido o gorila para simbolizar tudo o que é agressivo e violento, quando essa é justamente a única coisa que o gorila não é — e nós somos”, diz ele, deitado a um palmo dos três animais.
Como se entendesse inglês, um dos filhotes decide que se deitar em cima do naturalista deve ser gostoso, e que Attenborough não precisa temer tanta intimidade. Ele não teme; pelo contrário. As imagens o mostram abrindo um sorriso que, de tão aberto, de tão bonito, parece a própria essência da alegria.
As duas criaturas ficam assim deitadas, o humano por baixo, o macaco por cima. A fêmea, imensa e poderosa, sentada rente à cabeça de Attenborough, põe então a pata sobre sua cabeça, querendo ver seus olhos. Olha dentro de um, depois do outro, até finalmente enfiar o dedo na boca dele.
A conexão entre o humano e o não humano que a cena revela é um prodígio – mas não um milagre, já que acontece diante dos nossos olhos. Ela é possível. Basta que tenhamos um pouquinho daquilo que o biólogo Edward O. Wilson chamava de biofilia, essa conexão natural e genética com a natureza. Em Attenborough, a biofilia tem a qualidade de uma graça.
Evidentemente, nem mesmo o Botafogo de Garrincha seria capaz de se classificar para a final da Champions League, uma competição restrita a clubes europeus. Se mencionei a possibilidade para meus amigos, é porque, quando menos se espera, Attenborough tira mais um coelho da cartola. Muito provavelmente, de uma espécie já extinta.
No dia em que escrevi a mensagem, tinha acabado de descobrir que, como diretor da televisão pública inglesa, ele dera sinal verde ao crítico de arte Kenneth Clark para que produzisse a série Civilização, um marco da história da televisão. Mas não só. Minha mensagem terminava assim: “Como se não bastasse, soube hoje que, na condição de executivo da BBC, foi ele quem encomendou a primeira temporada de um programa humorístico com o – à época estranhíssimo – nome de Monty Python”.
David Attenborough completou cem anos. Quase quatro décadas nos separam. É um tempão, o suficiente para que eu, aos 64, ainda possa sonhar: quando eu crescer, quero ser como ele. (João Moreira Salles)



Dedé Laurentino
Escolinha do Professor Zuenir
Tutty Vasques
Todo mundo que conviveu com Zuenir Ventura tem um mestre pra chamar de seu. O meu Zu, quando saía de seu ‘aquário’ para ir ao banheiro na redação do Jornal do Brasil, costumava perguntar em alto e bom som ao Joaquim Ferreira dos Santos, mesas e mesas adiante: “Joaquim, tá com a mão limpa?” Naquela época, segunda metade da década de 1980, o mestre era ainda um garoto de cinquenta e tantos anos que liderava uma gangue de jornalistas repetentes da 5ª Série, gente que já tinha mais de 30, 40 anos, e que até hoje – cabelo branco ao vento, gente velha reunida –, não saiu do ensino básico do humor. Esse Zuenir que nos ensinou a não levar tudo muito a sério para não envelhecer por dentro é a parte que, modestamente, me cabe acrescentar às justíssimas homenagens que muita gente boa haverá de prestar ao glorioso legado profissional dessa figura doce, competente e fraterna que na próxima segunda-feira, 1º de junho, completa 95 anos.
Tenho outras lembranças do tempo em que formávamos uma dupla de pintores de parede em Vila Isabel, mas vou deixar para contá-las outro dia, não quero estragar a festa. Feliz aniversário, amado Mestre Zu!
PERDA TOTAL Na avaliação do comitê da campanha de Cláudio Castro ao Senado, nem um encontro a sós com Donald Trump na sauna da Casa Branca pode salvar a candidatura do ex-governador do Rio.
SEGURANÇA NACIONAL Por razões óbvias, o Pentágono mantém em segredo informações sobre alienígenas de aspecto humanoide, corpo avantajado de tonalidade alaranjada e plumagem amarela na fronte.
PEIDA LEITE? O álbum de apelidos carimbados pela criminalidade no Brasil ganhou figurinha recentemente destacada no noticiário por aproveitar a saidinha do Dia das Mães para fugir da prisão: ‘Mata Rindo’, como a fera é conhecida, entra para a página de alcunhas autoexplicativas, como ‘Cheio de Ódio’, ‘Sem Amor’ e ‘Peida Leite’. Se bem que ‘Peida Leite’... Deixa pra lá!
CHANCHADA A julgar pelo que já vazou do roteiro na imprensa, Dark Horse é uma comédia e tanto: quando o autor da facada depõe sobre seus contatos com ‘marxistas que consumiam muita droga’ só faltou a peruca do protagonista cair em cena.
DARK DOG Na correria de sua campanha, Flávio Bolsonaro fez o que os americanos chamam de ‘pet-stop’ na Casa Branca.
Alma Guillermopietro
A jornalista mexicana Alma Guillermopietro, 76 anos, não dialoga com entidades espectrais – mercado (?), opinião pública (?) ou comunidade internacional (?). Entende-se com a realidade palpável. Escreveu livros e dezenas de estupendas reportagens sobre sociedades, governos e desgovernos, artistas e corjas de criminosos de uma porção do planeta que consome seu obsedante interesse - a América Latina. “Estou infinitamente agradecida à minha profissão pela oportunidade de dedicar tempo a histórias que não tratam da morte, mas sim da descomunal, desbordante, profusa e desafiante vida da América Latina”, escreveu na introdução de Esta Impropable Tierra Prometida terceiro volume de suas memórias profissionais publicado recentemente na Espanha pela editora Debate.
Alma escreveu reportagens para The New Yorker, New York Review of Books, publicações europeias e latino-americanas. Para o jornal inglês The Guardian, cobriu a revolução sandinista, que derrubou o sanguinário ditador Anastasio Somoza. No livro há um capítulo sobre o duunvirato Daniel Ortega-Rosario Murillo, casal de origem sandinista que degradou a utopia revolucionária e instalou na Nicarágua um regime de opressão e terror. Conta também a história do padre mexicano Marcial Maciel, pedófilo, bígamo e viciado em drogas, que por muito tempo contou com a proteção da Igreja.
A beleza tem lugar no livro. Por exemplo, na história das “gloriosas” fotografias que a suíça-brasileira Claudia Andujar fez dos Yanomamis nas florestas brasileiras., que Alma viu na exposição do Instituto Moreira Salles em São Paulo. Ela relata a luta de Claudia pela demarcação das terras dos Yanomamis e o desdém do governo de Jair Bolsonaro pelos direitos de povos originários. O apreço pelos fatos, a habilidade de vertebrá-los e narrá-los com clareza e sobretudo a capacidade de pensar criticamente e com inteligência sobre o que apura recompensaram com prêmios o jornalismo de Alma. (Flavio Pinheiro)
Em versão eletrônica o livro tem preço acessível. Em papel, por ser importado, o custo é proibitivo.
Há 100 anos, no dia 26 de maio de 1926, nasceu em Alton, Illinois, pequena cidade às margens do rio Mississipi, Miles Davis. Viveu 65 anos. Com seu cálido e também eletrizante trompete inaugurou e desbravou eras do jazz. Kind of Blue, é um álbum canônico, com elenco estelar: Bill Evans (piano) e John Coltrane (sax) estão nele. A lista abre com Blue in Green, clássico de Bill Evans. Com Coltrane toca, em outro disco, All of You da fábrica de clássicos de Cole Porter. Oleo é um possante tema de jazz, do saxofonista Sonny Rollins. Segue-se Bess, You Is My Woman Now, linda melodia que é um dos pontos culminantes de Porgy & Bess, magistral ópera pop de George Gershwin. Miles Ahead está num dos superlativos discos que fez com o maestro e arranjador Gil Evans. Catembe, que remete a Moçambique, é exemplo da profícua parceria com o baixista e multi-instrumentista Marcus Miller. Miles foi do bebop ao funk. Uma estátua dele na Polônia é apenas um dos marcos que celebram este monumento do jazz.
Expediente
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: João Moreira Salles
Logomarcas: Dedé Laurentino
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