Pasmado - #09<
13 de maio de 2026
Caramurus Negros
13 de maio. Sai Princesa Isabel, entra Ventura Mina. No dia 13 de maio de 1833, exatamente 55 anos antes do dia da abolição formal da escravidão, o escravizado Ventura Mina liderou em Minas Gerais a Revolta de Carrancas. Nela morreram 33 pessoas, 21 escravizados – inclusive Ventura - e 9 membros da família Junqueira, fazendeiro que explorava e maltratava populosa escravaria. Esta história é destrinchada no livro “Caramurus negros: a revolta dos escravos de Carrancas”, da editora Chão, publicado em maio de 2025 e organizado pelo historiador Marcos Ferreira de Andrade, que assina esclarecedor posfácio. Os lapsos de documentação histórica da deliberada desmemória da escravidão não apagam a história da revolta, registrada nos autos dos julgamentos dos revoltosos, com trechos selecionados por Andrade e incluídos no livro.
Carrancas ficava na comarca de Rio das Mortes. No dia 13 de maio de 1833 Ventura Mina e os insurretos que o seguiram invadiram três fazendas e mataram a foice e facão parte da descendência de Gabriel Francisco Junqueira, deputado, que não estava em casa. Não pouparam duas crianças. Neste dia, uma bala feriu de morte Ventura. Por que estes negros se autointitulavam caramurus? História complicada. De forma oblíqua estabeleceu-se um vínculo com Diogo Álvares, náufrago português, que no século 16 foi acolhido pelos tupinambás que o chamaram de Caramuru, nome que davam ao peixe (moreia) que salta das águas. Caramurus era como se intitulavam os adeptos da volta de D. Pedro I ao Brasil, que abdicou ao trono em 1831 e regressou a Portugal para lutar pelo trono lá. Os Caramurus trataram de espalhar o boato de que D. Pedro I voltaria ao Brasil e imediatamente aboliria a escravidão.
Os negros acreditavam em histórias que pudessem resultar na sua libertação. “Nós somos caramurus”, proclamava Ventura Mina, que era da etnia Mina, da cultura Fanti-Axânti, oriunda de Gana. Esta história tem atalhos convenientes para o poder branco. Os negros teriam sido apenas massa de manobra de disputas de poder dentro da corte e de litígios entre fazendeiros. Ou seja, a revolta era só uma manipulação. Havia, porém, causas mais profundas. Na verdade, em Carrancas negros e negras escravizados, com frequência vítimas de castigos físicos, representavam 62% população. Só Gabriel Junqueira mantinha 163 negras e negros como escravizados.
Na galeria do 13 de maio Ventura Mina e os revoltosos de Carrancas são apenas coadjuvantes. Há mais conhecimento sobre a Revolta dos Malês, ocorrida dois anos depois (1835) na Bahia. Negros de fé muçulmana, liderados, entre outros, por Pacífico Licutan conjuraram a rebelião. Nas escolas, Ventura e Pacífico ainda estão à margem da História das lutas pelo fim da escravidão. (Flavio Pinheiro)
(*) A exposição Dupla Cura, retrospectiva da obra de Dalton Paula, faz parte das comemorações dos 20 anos de Inhotim, em Minas Gerais.
Leo Martins
Leo Martins tem mãos e olhos para muita obra. Desde criança gostava de desenhar. Aos 11 viu uma exposição de Chico Caruso. Visitou seu estúdio. Enfeitiçou-se com a possibilidade de transformar o desenho em profissão. Quase aos 20 foi apresentado a Cássio Loredano, influência incontornável. Com um empurrão de Loredano, começou a publicar desenhos nos jornais O Dia, e depois Gazeta Mercantil. Em seguida foi desenhista/caricaturista na revista Veja Rio e nos sites de notícias NO. e NoMínimo e no Estadão. Em 2006, resolveu comprar sua primeira câmera fotográfica digital. Pediu então ao amigo Fernando Lemos, craque do fotojornalismo, para acompanhá-lo em alguns de seus trabalhos na Veja Rio. Dois anos depois já fazia fotografias para a revista. Em 2012 apresentou um portfolio de fotos ao Globo. Foi admitido. Trabalhou no jornal 14 anos fazendo sobretudo retratos marcantes de variado elenco de artistas. Leo agora volta ao desenho no Pasmado com uma caricatura do técnico Carlo Ancelotti que na segunda-feira, dia 18, convoca os 26 jogadores da seleção brasileira que vai disputar a Copa do Mundo a partir de 13 de junho. Atordoa o italiano com uma questão absurda e ridícula: chamar ou NÃO Neymar.
Olho vivo!
Tutty Vasques
O Brasil é mesmo um país sem memória! Alguém aí por acaso lembra desse assessor careteiro do Bolsonaro? Sua performance facial de maior sucesso viralizou na solenidade do primeiro pronunciamento do chefe após a derrota nas urnas em 2022. Na época, o personagem virou meme de papagaio de pirata surtado sobre o ombro esquerdo do Ciro Nogueira (foto). Ninguém se deu conta de que talvez ele quisesse dizer alguma coisa importante sobre o sujeito à sua frente, o então ministro da Casa Civil. Se foi o caso, o homenzinho não teve tempo – Bolsonaro concluiu sua fala em 2 minutos – para contar só com caras e bocas tudo que ainda hoje está por ser dito. Mas só quem pode esclarecer a questão é o próprio Flávio Augusto Viana Rocha, almirante de esquadra da Marinha e Secretário Especial de Assuntos Estratégicos da Presidência da República entre fevereiro de 2020 e dezembro de 2022. Fica a dica para a imprensa investigativa.
AGENDA POSITIVA Tá feia a coisa, mas, convenhamos, a situação do Ciro Nogueira não é pior que a do lava-louças Ypê.
BASTIDOR Trump ligou para o celular do Lula no início da semana propondo uma reunião multilateral deles com Mbappé, craque francês que já contabiliza mais de 50 milhões de assinaturas em petição pela sua saída do Real Madrid. Ótimo reforço para o escrete da rejeição.
ERA SÓ O QUE FALTAVA Debate centenário sobre se o papel higiênico deve sair por cima ou por baixo do rolo no nicho do banheiro chega ao fim e provoca revolta popular: segundo arquivos do Google Patents, o correto é colocar o papel com a ponta caindo sobre a parte superior do rolo. Essa não!
ALTO RISCO NAS RUAS Quando, afinal, a Anvisa vai proibir o uso de Porsche no Brasil? A marca já provocou mais estragos no país que a Ypê.
CANETA 1. Espécie de seringa pré-preparada em laboratório para aplicação subcutânea de medicamentos que auxiliam na perda de peso; 2. drible clássico e desmoralizante no futebol, que consiste em passar a bola entre as pernas do adversário e alcançá-la às suas costas; 3. nome de antigo um instrumento analógico de escrita manual que aplicava tinta sobre papel por meio de uma ponta.
Anton Corbijn
Começou no dia 9 de maio na Fotografiska de Berlim a exposição retrospectiva de Anton Corbijn, fotógrafo holandês, que celebra seus 50 anos de carreira. Corbijn começou a fotografar em 1975 e em 1979 mudou-se para Londres. Gostava de música e começou a fotografar estrelas da cena do rock, como Nick Cave (na última imagem do mosaico abaixo). Fez parcerias mais duradouras com duas bandas: U2 (é autor da foto de capa do clássico disco The Joshua Tree) e Depeche Mode. Dirigiu mais de 20 videoclips. Cultivou o retrato como gênero e neste campo foi além da música. É dele a foto oficial da Rainha Beatriz, da Holanda. Sua exposição está itinerando por salas da Fotografiska, instituição sueca de fotografia que tem sedes em Estocolmo, Oslo, Nova York, Xangai, Tallinn (Estônia) e Berlim. A exposição vai até setembro de 2026. (Flavio Pinheiro)






Os italianos Gianluigi Trovesi (82 anos) e Gianni Coscia (95 anos) produziram discos memoráveis para o fabuloso selo ECM. Trovesi, na clarineta e no sax, Coscia, no acordeon, são músicos de jazz e em seu primeiro dueto produziram em 2000 o clássico disco In Cerca di Cibo, com algumas músicas que Fiorenzo Carpi fez para a trilha sonora do filme Pinocchio em 1971 – Pinocchio – In Groppa Al Tonno, Geppetto e In Cerca di Cibo, mas também Il Postino, que abre a lista, composta pelo argentino-italiano Luis Bacalov para o filme O Carteiro e o Poeta e Django, marcante composição de John Lewis, pianista e arranjador do Modern Jazz Quartet. Outro disco formidável da dupla é o dedicado à música do cultuado compositor alemão Kurt Weill (1900-1959) como as feitas para a peça Mahagonny de Berthold Brecht. A lista fecha com Bel Ami composição dos dois amigos.
Expediente:
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Dalton Paula, Anton Corbijn
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas










Não conhecia o Anton Corbijn. Trabalho lindo