Pasmado - #07<
29 de abril de 2026
Francis Hallé
Francis Hallé, cientista botânico francês, morreu no último dia de 2025 com 87 anos. Sabia tudo sobre árvores. Dá respostas simples e sofisticadas para perguntas comuns em A Vida das Árvores, livro que a editora Olhares lançou em 2022.
“A árvore mostra seu tempo”, ele cita o poeta e pensador Paul Valéry. E no tempo há comparações espantosas. Hallé admirou na Califórnia uma sequóia batizada com o nome “Parthenon”. Ela tem 3.000 anos. Quando o colosso do Partenon foi erguido na Grécia há 2.400 anos a árvore, que só muito mais tarde receberia este nome, já tinha 600 anos. E 3.000 anos é pouco. O Azevinho Real da Tasmânia, na Austrália, tem 43.000 anos, que correspondem ao Pleistoceno, período que precedeu nossa era geológica. (Uma nota sobre a tradução. O Azevinho ou Lomatia Tasmanica é Azevinho-do-King, pois foi descoberto em 1934 pelo mineiro australiano Charles Denison King. É uma planta que tem flores, mas não dá frutos ou sementes. Reproduz-se vegetativamente há 43.600 anos)
Hallé se aprofunda nas recentes descobertas da ciência que provam a complexidade das relações entre árvores e fungos subterrâneos que agem como artérias conectando toda a floresta. Cita a descoberta de “moléculas voláteis” que tem aroma aspergido por árvores e que são mensagens de uma para outra. As árvores reagem a parasitas avisando às outras o perigo que correm. São altruístas. Quando uma delas precisa de um nutriente específico uma rede subterrânea de trocas químicas socorre as mais fracas, mesmo que sejam de outras espécies.
“Toda a história de nossa evolução biológica cabe na vida de uma árvore”, informa Hallé. Apaixonado pela bioquímica das florestas ele mostra que as árvores têm uma forma própria de consciência. Esta ‘civilização’ verde vem sendo sistematicamente devastada por atos de uma supremacia que, do ponto de vista genético, os humanos não têm. Descobertas recentes, mencionadas por Hallé, mostram que temos 26 mil genes. Um grão de arroz tem 50 mil. (Arthur Fontes)
Loredano
Está em Vigário Geral o belo coreto que durante décadas enfeitou a praça Saenz Peña, o coração da Tijuca, no Rio de Janeiro. Dali foi desmontado pelas obras do Metrô em 1976 e felizmente guardado e reerguido no ano seguinte no centro da agradável praça Catolé do Rocha, no extremo norte da cidade, a um passo da última estação carioca da linha da Estrada de Ferro Leopoldina, -- que dali passa a Duque de Caxias, rumo a Gramacho, Saracuruna, Inhomirim.
Nesta simpática praça suburbana está desde 2023 uma placa memento com os nomes das vinte e uma vítimas da horrenda chacina ocorrida em 29 de agosto de 1993 na favela do bairro. No meio da madrugada deste dia policiais encapuzados invadiram a favela para vingar a morte de três colegas de farda e um alcaguete ocorrida véspera. Entraram atirando a esmo em moradores. Não foi o primeiro nem o último dos episódios que ainda acontecem na cidade com lamentável frequência.
Juliano Cazarré, a Cássia Kis de barba
Tutty Vasques
Não acontecia nada igual no Projac desde que a atriz Cássia Kis, pioneira na inclusão do arroz integral no ambiente tóxico da TV, abalou a cena cultural se convertendo em fins de 2022 à homofobia militante e ao golpismo de porta de quartel. Na semana passada, porém, o meio artístico voltou a trombar de frente com outro dos seus: o ator Juliano Cazarré, que a bem da verdade sempre foi meio esquisitão, atingiu o grau Kis de pensamento fora do script ao se declarar, em pleno boom do feminicídio no País, atormentado pelo “enfraquecimento da figura masculina na sociedade”. Papo sério: o cara está convocando para o último fim de semana de julho, em São Paulo, “o maior encontro de homens do Brasil”, evento que batizou de O farol e a forja. É mais um passinho à frente no retrocesso cognitivo que, como praga, espalha a desfaçatez do negacionismo da razão Brasil afora. Cazarré, como Cássia Kis, também já foi outra pessoa. Na foto acima, de Maria de La Gala (Veja Rio), aqui levemente aquarelada com pincéis da IA, ele aparece bem à vontade de saia na área VIP do Rock in Rio 2017: “Me sinto mais confortável assim!” – explicou a vestimenta. Deve haver algum vírus ou bactéria – sei lá! – que ataca o cérebro do ser humano para ele mudar de ideia desse jeito, né não?
Nota de esclarecimento: não foi por causa das alucinações conservadoras de Cazarré que Aguinaldo Silva, autor de As três Graças (Globo, 21h), matou o personagem dele – o ex-traficante Jorginho Ninja convertido à fé evangélica na cadeia – na metade da novela, que continua no ar. Uma coisa não tem nada a ver com a outra, embora a combinação de assuntos seja um prato cheio para fake news. Um faketóide perfeito!
UMA BOA NOTÍCIA, ENFIM ‘Grupos de WhatsApp onde só vale assobiar viram febre Brasil afora.’ Não há espaço para mensagem de texto e quem falar é expulso. Tudo que nós estamos precisando!
TIRO E QUEDA Cessar-fogo de Donald Trump já dura uma década e parece irreversível, segundo conversa que vazou do grupo de amigas íntimas da primeira-dama Melania.
MARCHA RÉ DA ESPÉCIE Guerra civil entre chimpanzés nas florestas de Uganda está mais alinhada à Convenção de Genebra do que a sanha animalesca de Netanyahu no Líbano.
SÓ SE FALA DISSO NOS TRIBUNAIS Já tem juiz por aí comparando o corte de seus penduricalhos à castração de pets.
QUEM DIRIA! A crise global das narrativas políticas transformou o Rei Charles III em um orador bem razoável na arte de não dizer nada que vá mudar coisa nenhuma. Foi ovacionado no Congresso Americano.
SEGUE A LÍDER Preocupada com uma possível jogada do colega Juliano Cazarré para atrair seus fãs de direita, Cássia Kis voltou ao noticiário na sexta-feira (24/4) protagonizando um bate-boca clássico com mulher trans em banheiro feminino de shopping na Barra da Tijuca. Deve ter faturado um bocado de seguidor do Cazarré.
Ana Carolina Fernandes






“Beleza apocalíptica” é um paradoxo perfeito usado por Ana Carolina Fernandes para definir este seu ensaio sobre a degradação exuberante cultivada há décadas pelo descaso nas beiradas da Baía de Guanabara profunda, especialmente na costa que se estende a partir de Niterói. As fotos foram tiradas em 2014 de carona em helicóptero alugado pelo New York Times para uma reportagem sobre a qualidade das águas nas áreas que dois anos depois serviriam às competições de esportes náuticos nos Jogos Olímpicos do Rio. Fotojornalista de carteirinha, Ana Carolina cumpriu sua pauta para o jornal americano – emplacou inclusive uma primeira página – e aproveitou a viagem patrocinada para documentar a plasticidade da poluição em estado bruto vista assim do alto, guiada pelo olhar experiente do biólogo Mário Moscatelli, seu parceiro na empreitada internacional. Essas horas extras no trabalho explorando o colorido da decomposição de matéria orgânica misturada a dejetos lançados in natura renderam a exposição Veios abertos da Baía de Guanabara (Centro Cultural Justiça Federal no Rio, 2017) e, lamentavelmente, permanecem atemporais apesar dos sucessivos projetos de despoluição transformados em lenda pelos desgovernos que naufragam há muito tempo nas águas da Guanabara. (Alfredo Ribeiro)
Tímido, Nelson Freire (1944-2021) lapidou na sua introspecção um senso de beleza que habita o sublime. Talvez por isso suas mãos pequenas extraíam do piano lentidões e pausas encantadoras em adágios, andantes, prelúdios, noturnos e sonatas, embora exibissem maestria em partituras que exigem efusões vulcâmicas. A lista começa pelo fim. A transcrição para piano da cena da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck, era um bis quase obrigatório nos encerramentos de seus recitais e concertos. Nelson calça o número de Chopin daí sua fluência do Noturno Nº 1 e nos Estudos Op.25. Mas também escava belezas impressionantes na Sonata nº 3 e na Valsa Nº 15 para piano de Brahms. O Beethoven da sonata Les Adieux não está na relação de sonatas mais icônicas do gênio alemão e por isso é uma escolha rara. Consolations de Liszt pedem Nelson. Assim como a berceuse das Lyric Pieces de Grieg. A transcrição para piano do prelúdio da Bachiana nº4 de Villa-Lobos sela o compromisso deste supremo pianista com a música brasileira.
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Arthur Fontes e Ana Carolina Fernandes
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas










Excelene a escolha dos temas e seu desenvolvimento. Comprei o livro de Francis Hallé. Uma delicia de leitura. Parabens!
Maravilha! Um beijo especial, pra querida Ana Carolina Fernandes