Pasmado - #04<
08 de abril de 2026
Dedé Laurentino
Alejo Carpentier
A rica plumagem do estilo e a assombrosa erudição do cubano Alejo Carpentier (1904-1980) estão disponíveis de novo. Num momento em que Cuba está assediada por pressões imperiais, saudosas de cassinos e hotéis que rescendiam a luxo cafona e predatório, é oportuno lembrar dele. Filho de pai francês e mãe suíça, Carpentier foi para Cuba com dois anos e lá decantou para sempre sua alma. Em agosto de 2024 a Editora 34 lançou “A Cidade das Colunas” (tradução de Samuel Titan Jr), breve e cativante ensaio motivado por fotos esplêndidas de Havana do italiano Paolo Gasparini, hoje com 92 anos. “No princípio foi o mestre de obras, o homem do prumo e da argamassa”, diz Carpentier logo na abertura. E a arquitetura que veio depois das primeiras edificações corresponde a variada fisionomia urbana e humana de Havana. “Desde sempre a rua cubana foi buliçosa e falastrona, com sua litania de pregões, seus camelôs intrometidos, seus confeiteiros anunciados por sinetas maiores que o próprio tabuleiro de doces...” A rua de alegria mestiça o tempo todo conversa com inconfundíveis marcas arquitetônicas. Uma arquitetura marcada por tantas colunas, mas também por sombras e penumbras, defesas da intimidade e anteparos para o sol.
Mas Carpentier está de volta também com “O Recurso do Método”, caprichada reedição com nova tradução (André Aires) lançada pela Editora Pinard em dezembro de 2025. “Recurso...” inscreve-se na linhagem de romances latino-americanos sobre ditadores, como “Eu o Supremo”, do paraguaio Augusto Roa Bastos, “O Senhor Presidente”, do guatemalteco Miguel Ángel Asturias, ou “O Outono do Patriarca”, do colombiano Gabriel Garcia Márquez. Neles o que parece anedótico ou caricato é simplesmente veraz. O ridículo premia tiranos. O ditador de Carpentier, com manhas e ares aristocráticos dialoga com “O Discurso do Método”, de René Descartes (1596-1650), um dos fundadores da filosofia moderna. Mas apenas para malversar seus princípios e encobrir com este verniz malvadezas e violentos arroubos autoritários. O livro começa com preguiçoso despertar... “mas eu acabei de me deitar. E já toca a campainha. Seis e quinze. Não pode ser. Sete e quinze, talvez. Mais perto. Oito e quinze. Esse despertador será um prodígio da relojoaria suíça, mas seus ponteiros são tão finos que quase não se veem. Nove e quinze. Também não. Os óculos. Dez e quinze. Isso sim”. Ditaduras não dispensam comodidades das elites em que se espelham. (Flavio Pinheiro)
Para ler mais Carpentier: “O Reino deste Mundo”, “O Século das Luzes”, “O Cerco” e “Concerto Barroco”. Livraços.
Bruno Veiga






Profissional forjado no calor do fotojornalismo, Bruno Veiga é hoje um artista consagrado da fotografia que não esconde em seus trabalhos resquícios do olhar sensível de fotojornalista, mesmo afastado há mais de duas décadas das redações. “Meu método de trabalho é simples, eu olho o mundo que nos cerca. Olho novamente. E olho mais uma vez, até achar o que eu não sabia que estava buscando.” Foi assim que nasceu o projeto da exposição O Estado das coisas (Lisboa, 2025), basicamente sobre as cicatrizes do fenômeno da gentrificação na capital portuguesa, onde Bruno vive desde 2018. Ruínas e tapumes, muito além das marcas aparentes de uma transformação urbana, revelam neste recorte de imagens cedidas ao Pasmado vestígios de um passado arrancado da paisagem, feridas sociais e afetivas, último estágio antes do apagamento total da vida como ela era. (Alfredo Ribeiro)
Alguma coisa está fora de órbita
Tutty Vasques
Foi muito comovente e um pouco patético o esforço da imprensa mundial em transformar esse rolé aleatório pela órbita da Lua na melhor notícia do século. Se a ideia era criar um contraponto feliz – e até necessário – a tanta resenha ruim em sequência, o jornalismo exagerou no oba-oba sideral. O pequeno passo para o gigantesco assalto às terras raras do satélite natural da Terra foi o cúmulo desse descontrole emocional da notícia sobre a missão da NASA. Mas, que ninguém se iluda, se tudo der certo nesta empreitada, o ser humano – ô, raça! – vai recriar uma Serra Pelada em dimensões galáticas na Lua. Fora a voracidade tecnológica das grandes potências (China e EUA), já deve ter garimpeiro ilegal em território Kayapó de malas prontas para embarcar no primeiro foguete exploratório dos minerais mais cobiçados pelo futuro. Se também encontrarem petróleo por lá, vixe, a Lua será mais perfurada que o Texas em seus tempos áureos. No dia em que o fotojornalismo revelar imagens de cratera lunar com aspecto de um canto qualquer da Baía de Guanabara só restará o consolo do desmatamento zero onde não há árvores para se derrubar. Mas a boa notícia de carona nesse destino devastador da Lua, coitada, é que talvez isso salve o que sobrar da Terra por mero desinteresse econômico no planeta. E quando, enfim, o homem sugar nosso único satélite natural até o caroço, tudo bem, a esta altura Marte estará logo ali.
· LEMBRA DA ‘REALIDADE VIRTUAL’? Há pouquíssimo tempo falava-se dela talvez tanto quanto hoje se conversa sobre Inteligência Artificial. Deve estar numa prateleira qualquer do Museu de Grandes Novidades construído na canção do Cazuza.
· NÃO HÁ URNA QUE AGUENTE UM TROÇO DESSES Peru terá cédula de 65 centímetros de comprimento nas eleições presidenciais, tantos são os candidatos ao cargo.
· DA SÉRIE NÓS SOMOS UNS MERDAS Influencer de ‘maratona de sexo’ teve lá seus motivos pra mentir sobre gravidez após ir para a cama com 400 homens: “Ganhei 6 milhões de reais com isso.” Não tente repetir a operação financeira em casa!
· POR QUE NÃO TE CALAS? Tem horas em que meu lugar de fala devia ser o silêncio. Mas, enfim, ninguém é perfeito!
A voz de Jeanne
Jeanne Lee normalmente não está aninhada na constelação de grandes divas negras do jazz e da canção. Devia estar. Jeanne nasceu em Nova York em 1939, e morreu no ano 2000 em Tijuana, México, com 61 anos. Foi poeta, compositora e cantora de jazz. Seu timbre particular e musicalidade fluida combinam com a companhia de grandes pianistas como Mal Waldron e Ran Blake. Com Waldron ela canta “I Let a Song Go Out for Mey Heart” (Duke Ellington), “You Go to My Head” (J.Fred Coots e Haven Gillepsie), e “I Could Write a Book” (Richard Rodgers e Lorenz Hart). Com Ran Blake, “Lover Man” (Jimmy Davis, Rem Ramirez e James Sherman), “A Taste of Honey” (Bobby Scott e Ric Marlow) e “Corcovado” (Tom Jobim). Em “I Thought About You” (Jimmy Van Heusen e Johnny Mercer) é acompanhada pelo quarteto de Dave Holland. A capela, solta a voz em dois spirituals, preces em forma de resistência cantadas por escravizados de autoria desconhecida: “Sometimes I Feel Like a Motherless Child” e “He’s Got the Whole World in His Hands”.
Expediente:
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques, Alfredo Ribeiro e quem mais chegar.
Nesta edição: Bruno Veiga e Edgar Moura.
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas









Belo Pasmado. Amei a bandeira do Dedé.