Pasmado - #02<
25 de março de 2026
Livros, Artes Visuais, Humor e Música para pasmos dos sentidos e outros espantos.
Madame Chopin
Professoras de piano nem sempre têm talento memorável. A missão das melhores é despertar talentos especiais. A francesa Nadia Boulanger (1887-1979) deu aulas que Daniel Barenboim, Philip Glass ou Astor Piazzolla nunca esqueceram. Foi uma lenda. Lucia Branco (1897-1973), ao se encantar com uma composição do aluno Tom Jobim, então com 18 anos, desestimulou-o a seguir tentando a carreira de pianista clássico. A música brasileira agradece. Nise Obino morreu em 1995. Não para Nelson Freire. Nise instalou-se para sempre na alma de Nelson, sendo uma parceira constante da sua intimidade com o piano. “A senhora Pylinska e o segredo de Chopin”, pequeno livro do franco-belga Éric-Emmanuel Schmitt, publicado pela editora Zain em 2025, com ótima tradução de Mariana Delfini, condensa idiossincrasias, excentricidades e sabedorias das aulas da professora Pylinska, polonesa, que vivia em Paris, para o aluno e personagem Éric, mesmo nome do escritor.
O mundo de Pylinska é Chopincêntrico. Do gênio de Frédéric Chopin, de passagem breve pelo planeta (1810-1849), irradiam todas as virtudes, da música e da vida. “Bach praticava desenho; Chopin, pintura.” Calma, madame. E o cromatismo da música de Bach? “Bach oferece um rabisco para nós colorirmos; Chopin não”. Misericórdia! Registre-se: Chopin reconheceu Bach como importante fonte de inspiração. Na primeira aula, ela convidou Éric a deitar-se debaixo do piano. Pylinski informou que Chopin ao começar deitou-se debaixo do piano para sentir suas vibrações. “A música é, antes de tudo, uma experiência física. Os avarentos só escutam com os ouvidos; então seja generoso: escute com o corpo inteiro”, prescreveu.
Um dia Pylinska recebeu Éric amuada. “Alfred Cortot morreu”. O extraordinário pianista francês já tinha morrido há um tempão. Alfred Cortot era o gato. Povoavam seu apartamento também os felinos Horowitz e Rubinstein, outras estrelas do piano da sua predileção. Depois de dias de luto, cismou que uma aranha que perambulava pelo teto do apartamento era a reencarnação de Alfred Cortot e, sobretudo, das astúcias do gato que emitiam avisos que só ela entendia.
Com boas razões, Pylinska detestava o virtuosismo, pecha que perseguiu injustamente Chopin. “Aponte a luz para a música, não para si mesmo. Ah, por mim, esses virtuoses que se colocam entre a peça e o público seriam abatidos a tiro”. Na peroração não poupava o tenor Luciano Pavarotti – “Pavarotti nos leva até ele mesmo; Chopin nos leva além”. E parou por aí. Quando lhe subia à cabeça coisa ainda mais ferina para dizer deixava o mistério no ar: “Prefiro fechar a boca: caridade cristã”.
Registre-se que em certas partituras manobras de dez dedos no teclado exigem um virtuosismo que provoca pasmos. Uma vez perguntaram a Vladimir Horowitz por que Rachmaninov conseguia tocar piano tão rápido. Ele respondeu com uma pergunta: “Por que cachorro consegue morder o próprio rabo? Porque pode”. O virtuosismo espetaculoso é circense, o necessário desbrava possibilidades musicais. E é para poucos.
Éric quando criança tinha horror do piano armário de sua casa. Dele não saía nenhuma melodia que prestasse e sim “marteladas, cacofonias, rangidos, escalas desdentadas, arfadas, ritmos mancos, acordes dissonantes”. Até o dia em que tia Aimée tocou Chopin. Desabrochou nele então um fervor que o levou a Pylinska. Tia Aimée, que devotou todas suas energias amorosas a Roger, homem casado, é um contraponto do relato do livro. Chopin acalmava seu papel de ‘outra’ e dava conforto a cavas tristezas.
Tia Aimée, falando de Chopin, dá uma lição a Éric: “Ele torna bonito aquilo que não é e torna incandescente aquilo que já era. Em vez de oferecer refúgio, ele nos obriga a lucidez...ampliando nosso prazer pela condição humana”. Difícil discordar, mesmo para quem não enxerga Chopin de forma tão divinatória e totalizante como Pylinska e Aimée. No mais, melhor fechar a boca: caridade cristã. (Flávio Pinheiro)
No alto, retrato de Chopin pintado por Eugène Delacroix, seu grande amigo.
Loredano – A Pedra do Sal
Porque existiu ali, quando era à beira-mar, um trapiche para desembarque e depósito de sal, ficou se chamando Pedra do Sal a velha subida da Prainha ou do Quebra-bunda, um dos acessos do Morro da Conceição, no centro do Rio de Janeiro, A Pedra é hoje um trecho da rua Argemiro Bulcão, cuja primeira quadra para o lado da Baía de Guanabara , foi em 2021 rebatizada de rua Tia Ciata, a mais famosa das matriarcas baianas da Pequena África da cidade. A dois passos dali, na atual avenida Barão de Tefé, esteve o nefasto Cais do Valongo, onde, a partir de 1811, desembarcaram na cidade os últimos 500 mil escravizados a ela chegados. Nessa área, o bairro da Saúde, tornada região portuária no início do século 20, fixou-se aquela primeira Pequena África onde se criaram os primeiros grêmios carnavalescos. Universo que depois se transferiu, inclusive Ciata (Hilária Batista de Almeida) para o entorno da famosa Praça Onze de Junho, para além dos morros da Conceição e da Providência.
Tutty Vasques
Justus do it
Sabe aquele impulso quase incontrolável que todo mundo às vezes tem de atirar alguma coisa pesada na tela da sua smart TV adquirida em 12 prestações no Mercado Livre? Antes mesmo do power point cretino que o ‘Estúdio i’ da Globonews pôs no ar ligando o Lula ao escândalo do Banco Master, tal instinto primitivo de telespectador crítico já vinha me assombrando a cada intervalo na programação da emissora ocupado pelo anúncio da Amil Black protagonizado em São Paulo e em Paris pelo almofadão Roberto Justus. Se gabar da ajuda de uma ‘concierge exclusiva’ para cuidar da saúde da família é um escárnio com quem precisa brigar na Justiça para que seu plano autorize uma cirurgia de prótese no joelho da mãe acamada. Outra coisa: por que diabos todo cartão de gente rica – de crédito, de sala vip, de milhagem e agora de assistência médica – é ‘black’? Até o Uber deles é ‘black’! Só pode ser gozação com os pretos. Tem mais: ‘segmento premium’, como diria o sergipano Ancelmo Gois, “é o cacete”!
· Muita gente em Brasília que jamais recebeu um mísero agrado de Daniel Vorcaro anda inconformada com a quantidade de colegas que, sabe-se agora, comiam fartamente na mão do ex-banqueiro. A inveja é uma merda, né não?
· Inspirado pela falta de carisma do atual papa americano, foi instituído nas redes sociais o Prêmio Leão XIV de Inexpressividade Bem Intencionada. Os brasileiros mais votados até agora são Filipe Luís (ex-técnico do Flamengo), Cecília Malan (correspondente da Globo em Londres) e Paulo Gonet (procurador-geral da República). O português António Guterres (secretário-geral da ONU) lidera entre os estrangeiros.
· O pessoal da ‘Folha’ está arrasado: a galera da GloboNews desmoralizou de vez o ‘erramos’.
· A necessária redução da jornada 6 x 1 de trabalho é o que no futebol chamam de ‘controle de carga’ dos jogadores.
· Uma coisa é uma coisa, mas outra coisa também é uma coisa. Pense nisso!
Aletxandre Sant’Anna






O fotógrafo Alexandre Sant’Anna tem na gaveta um álbum de inspiração absolutamente pessoal: há pelo menos uma década vem colecionando imagens da paisagem parada no tempo e da gente caipira da região do Gamarra, município de Baependi, no Sul de Minas Gerais, onde mantém um sítio que lhe serve de refúgio da correria no Rio de Janeiro. (Alfredo Ribeiro)
Intérpretes negros(as) têm timbres e ritmos singulares para cantar o repertório dos Beatles. Com voz rouca e seu violão percussivo, Richie Havens (1941-2013) dá outra vida a “Here Comes the Sun”, “Eleanor Rigby”, “She’s Leaving Home” e a “With a Little Help of my Friends”, só cantarolada, convocando a plateia de Paris a entoar a música. Ray Charles, gênio de diferentes latitudes, confere pungência a “Yesterday” e escoltado por coro feminino ataca “Let it Be”. Stevie Wonder sacode “We Can Work It Out”. A diva Sarah Vaughan salta do jazz e da canção para a batida de “Blackbird”. Gilberto Gil saboreia “Something”. Tina Turner explode em “Come Togheter”. E Aretha Franklin veste com seus tons inalcançáveis “The Fool on the Hill”.
Expediente:
Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques e quem mais chegar.
Nesta edição: Alexandre Sant’Anna
Logomarcas: Dedé Laurentino
Design da página: Roberto Caldas









Tutty, valeu a espera. Desde NoMinimo tava difícil te ler
Amei!