Pasmado - #01<
Livros, Artes Visuais, Humor e Música para pasmos dos sentidos e outros espantos.
Guimarães Rosa
2026, ano de celebrar Guimarães Rosa: 80 anos de “Sagarana”, fabuloso livro de contos; 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”, romance que reinventa a moderna literatura brasileira. “Sagarana” perdeu um concurso da Academia Brasileira de Letras para “Maria Perigosa”, de Luís Jardim livro que sumiu no tempo. No júri houve acalorada discussão. Graciliano Ramos votou em Jardim. Gostou de “Sagarana” mas achou o livro grande demais (Guimarães Rosa suprimiu alguns contos antes da publicação). Mas Graciliano profetizou: daqui a 10 anos ele vai escrever um grande livro. E escreveu.
Antes da publicação de “Sagarana” em 1946 pela editora Universal, Guimarães Rosa escreveu carta ao amigo João Condé comentando cada conto e elegeu seu preferido: “A Hora e a Vez de Augusto Matraga - História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras, não falarei sobre seu conteúdo. Quanto à forma, representa para mim vitória íntima, pois, desde o começo do livro, o seu estilo era o que eu procurava descobrir”.
Oitenta anos depois ainda ressoa o mais sonoro grito de coragem da literatura brasoileira contra a opressão oligárquica: “Nomopadrofilhospritossantamêin! Avança, cambada de filhos-da-mãe, que chegou minha vez”, avisou Nhô Augusto Matraga quando sozinho partiu para cima de Joãozinho Bem-Bem e seus comparsas. Luta de vida e morte.
Dez anos depois foi publicado “Grande Sertão: Veredas”, com suas inesperadas e intrigantes invenções vocabulares que percorrem uma saga brasileira. No calor da hora, em 1956, o cronista/poeta Paulo Mendes Campos escreveu sobre o livro: “porque Riobaldo viu, ouviu, cheirou, provou da terra e dos corações; …porque se integrou na profunda apreensão de seus sentidos, dando uma medida de beleza e verdade às especulações...porque seguimos todos através do grande sertão e aos poucos nos distinguimos no lusco-fusco do mato…porque nós guardamos para sempre um livro como esse: eu o louvo com modéstia e espanto”.
“O sertão é uma espera enorme”, escreveu Guimarães Rosa há 70 anos. Ainda é. (Flavio Pinheiro)
Dedé Laurentino
Dia 20 de março começa a primavera em Londres, onde Dedé Laurentino vive e trabalha, e o outono no Brasil que mora nele. Nas árvores de suas aquarelas estão os tons das novas estações em cada fatia do planeta.
Tutty Vasques
Mundo mundo estreito mundo
Tanto faz se o certo é Hormuz com o agá maiúsculo da ‘FolHa’ ou simplesmente Ormuz, como escreve o resto da imprensa brasileira. O Estreito em pauta é sempre o mesmo nessas horas em que por ele não passa nem pensamento: está todo mundo com o Estreito de Ormuz na mão – eis a questão! Hoje em dia, cada um com seu cada qual, quem tem Estreito de Ormuz tem medo. Não tem essa de pimenta no Estreito de Ormuz dos outros é refresco. Estamos todos com o Estreito de Ormuz piscando, à exceção de uns poucos que nasceram com o Estreito de Ormuz virado pra Lua e não dependem da economia mundial. Você deve estar se perguntando que diabos o Estreito de Ormuz tem a ver com as calças se o Trump já deu sinais de que quer tirar o seu Estreito de Ormuz da reta, mas se depender de Netanyahu essa guerra vai se prolongar até o Estreito de Ormuz fazer bico. Enfim, passarinho que come pedra sabe o Estreito de Ormuz que tem. Se quiser saber mais a respeito, cuidado com o que vai perguntar: ouvi dizer que tá cheio de comedor de Estreito de Ormuz de curioso nesses chats de IA. Se liga!
· Mais ou menos de hora em hora a Globo News põe no ar um comercial do seu vespertino ‘Estúdio i’ em que a Fernandinha Torres diz sorrindo para a jornalista Andréia Sadi após entrevista ao vivo no programa: “Só você, realmente, só você”! A expressão é uma variante daquela outra que também diz tudo e nada ao mesmo tempo, muito usada por artistas para comentar o trabalho de colegas de profissão: “É a sua cara, incrível, a sua cara!”
· AGENTES SECRETOS: Passado o Oscar, continua na moda ser pernambucano. Já tem inclusive baiano dizendo que é do Recife.
· Papo de influencers pasmos com o noticiário:
-Viu que o Vorcaro lucrou mais de R$ 290 milhões em operação com fundos em 24 horas?
-Só no OnlyFans?· Ninguém tem culpa de ter um pai conhecido como ‘Ratinho’. Só não dá para entender o filho que escolhe ser chamado de Ratinho Jr.!
· NOTA DE FALECIMENTO: O discurso de ódio está tão naturalizado nas redes sociais que quando você escreve um elogio a alguém logo te perguntam se ele morreu.
· É possível pedir medida protetiva de distanciamento contra a Inteligência Artificial?
Jorge Panchoaga




O fotógrafo colombiano Jorge Panchoaga durante quatro anos fotografou Palenque de San Basílio, cidade de 3.500 habitantes, a 50 km de Cartagena das Índias. Todas as imagens são noturnas. Kalabongó, vagalume em idioma palenquero, mas também luz da resistência em sentido simbólico, é o nome do primoroso livro que resultou desta empreitada. Em 1599, Benkos Biohó, da etnia bijago da Guiné Bissau, juntou 30 negras e negros escravizados e fundou Palenque de San Basílio. Palenque, vila cercada por estacas de madeira, que corresponde ao quilombo no Brasil tornou-se o primeiro território livre das Américas, 100 anos antes da independência do Haiti, primeira república negra. Palenque, perenizada nas notáveis imagens de Panchoaga, resiste até hoje. (Flavio Pinheiro)
É preciso ouvir Cuba. Sua música, é um patrimonio que resistiu a bloqueios estúpidos. Abre a lista “Ojos Malignos”, de Juan Pichardo que Marina De La Riva canta com Chico Buarque. Depois vem “En La Orillla del Mundo”, obra prima de Martin Rojas (1943-2023), na bela voz de Monica Salmaso. Seguem “Quizás, quizás, quizás”, de Osvaldo Farrés (1902-1985), com a guatemalteca Gaby Moreno (44 anos), “Yolanda”, linda declaração de amor de Pablo Milanés (1943-2022) à sua mulher , “Tres Palavras”, de novo de Farrés com Bebo e Chuco Valdés, em duo de piano de pai e filho, “De camino a la vereda”, do lendário cantor Ibrahim Ferrer com Buena Vista Social Club , “Un dia de noviembre” do extraordinário compositor Leo Brower (87 anos), com o violonista colombiano Ricardo Cobo e finalmente “Guantanamera”, espécie de hino cubano com versos do grande poeta José Marti musicados por Joseito Fernández (vários intérpretes agregados por Playing for Change).
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Editor: Flavio Pinheiro
Colaboradores: Loredano, Dedé Laurentino, Léo Martins, Tutty Vasques e quem mais chegar.
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pasmem!!! parabéns
amei!!!!🥰